terça-feira, 14 de setembro de 2010
Os Sete Pecados Capitais: AVAREZA
Todos eram bem-vindos! Lá na praça se ouvia de tudo um pouco, cada um falava de seu objeto como o mais bonito, o mais importante... cada qual com o seu fetiche. E dele viviam, pois eram as histórias e o significado simbólico daqueles objetos que valiam quase toda riqueza que mantinha a cidade. Os objetos eram demais desejados pelos que frequentavam a festa; pagava-se o preço que fosse para apenas ver os objetos; algumas raras vezes os vendiam. E assim os habitantes da cidade acumulavam.
Era uma bela rotina para todos, exceto para Tatiana que continuava não vendo graça em nada daquilo. Aquelas pessoas apegadas as suas histórias e objetos, só a faziam sentir-se mais distante daquele sentimento de apego. Cada objeto tinha seu valor e isso era o que mais importava para aqueles habitantes: valor afetivo, valor simbólico e até mesmo o próprio valor monetário. Lá era assim... todo setembro e as vezes até os outros meses do ano giravam em torno do apego ao significado daqueles valores.
Somente Tatiana achava o máximo a cidade vizinha, onde esse valor de guarda e acumulação de objetos não existia. Lá o lema eram as trocas constantes, as relações efusivas e passageiras; os objetos pessoais só significavam enquanto fossem o último modelo nas vitrines. Não existia nenhum penduricário para encenar nada. Tudo tornava-se lixo, após seu tempo restrito de uso... o descarte era o destino. Mas lá Tatiana sentia-se em casa. Dá sua cidade, só tinha olhos para toda aquela novidade da cidade ao lado, lá não se mantinha nada; com o descarte... a única coisa que se mantinham era o lixo... que se acumulava a cada instante.
Tatiana seguia assim... preferia não ver a beleza do "ar fresco" que respirava ao abrir sua janela. Só tinha olhos pro lixo, mesmo que indiretamente!
Joyce Abbade
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Os Sete Pecados Capitais: INVEJA
Senhorita Antônia só queria ser bonita, mas este bem não lhe cabia. Poucas curvas ela tinha. Com seu corpo nada exibia que o fazia sorrir. Mas na cozinha não havia chef que a dobrasse. Era orgulho do marido e seu momento preferido eram os banquetes da degustação . Sorria do início ao fim com tudo que comia, que via que a mulher fazia. Mal cabiam os sabores em seu paladar, tamanha diversidade de fatias. Ainda assim, insatisfeita, a teimosa da Antônia se ressentia. Isso tudo porque beleza não teria, como a da menina Alice.
A menina Alice queria ainda ter marido, mas este já se foi, e foi sem explicar. A vida quis assim, ou não mais. Não poderia mais fazer Gabriel sorrir. A jovem Alice, tão bela, já nem de casa saía. Sua beleza não vinha de academia, nem outro exercício qualquer que fazia. Seus belos seios, sua cintura fina, seu quadril arrebitado, suas pernas, pele, cabelos...todas as medidas numa mulher só. Os homens a queriam! Sem proveito, pois a beleza, que agora de nada lhe serve, Alice só pensa em ver no espelho do solitário lar. Por muito ainda, insatisfeita, a coitada da Alice se ressentia. Isso tudo porque seu homem queria ter, ou outro, como Seu João.
Seu João só queria fazer sentido pra essa vida. Seja na cama, na cozinha ou no sofá, nenhum lugar o fazia sorrir. Todos diziam que tinha a melhor mulher: trabalha, passa, cozinha e, na cama, faz o que quer. Mas no olhar da manhã, não lhe sobra nada. A vida a dois mais parece uma maquinaria, a qual operário não quer. Ainda assim, com aliança, o melancólico João se ressentia. Isso tudo porque já nem viver queria. Queria apenas um coração como o de Gabriel, que já nem sequer batia.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Os Sete Pecados Capitais: Luxúria
Tudo pronto. O carro encarregado de transportar as cestas básicas que salvam o corpo, as roupas e os cobertores que alimentam a pele, e as boas-novas que aquecem as almas, já havia chegado. Foram assim os da paróquia para mais um evangelismo dominical. Lá, uns para um lado, outros para outro, alguns ainda para um terceiro. É que nestes lugares não faltam entradas outras, novos becos, como um labirinto desmedido para os do asfalto; uma cartografia lida para os de dentro.
Numa destas casas qualquer, bateu frei Tomás. Na verdade não bateu, por medo de derrubar a porta moribunda, causando assim um constrangimento logo na entrada. Chamou por palmas até ser atendido por uma mulher que, surpresa como quem espera algo demasiado aguardado, pediu que entrasse. A ordem era não adentrar sozinho em casa de mulher sozinha, sem sinal de presença masculina. Entretanto, talvez pelo olhar de súplica daquela mulher, ele cedeu. Esforçou-se ela para o deixar acomodado em seu humilde lar, enquanto apanhava a cesta com as roupas, e logo as levou para dentro. Conversaram.
Frei Tomás inspirou profundamente, encheu os pulmões de ar, buscando sentido, em desalento pela história de vida da moça. Não poderia saber o que viria. Ainda jovem, apenas 26 anos, embora não tenha vivido menos de 35. Seus 4 filhos não estavam em casa. Foi viúva uma vez aos 19. Abandonada outra vez, aos 25, mas não por motivo de morte. Após a prece, como uma palavra de consolo, o frei lhe disse que tudo iria melhorar. Então, ela pediu que o fizesse.
Desatou o laço que amarrava seu vestido. Despiu-se. Não era bela. Não havia formosura em seu corpo. O frei emudeceu. Pálido e avermelhado, tudo em perfeita sincronia. Ela queixou-se de uma vida sem prazeres e disse: “Nunca tive um homem tão bem apanhado em minha frente. Saudável, forte, bonito. Se veio trazer algo bom... que seja pleno”. Quantos sentimentos não percorreram a pele deste virgem frei... mas apenas afetos. Nada na consciência. Nenhuma explicação. Silenciado, por não haver o que dizer. Entendendo por consentimento o que cala, ela se aproximou, pegou sua mão e a pressionou contra os seios. Beijou-o. Convidativa, caminhou em direção ao quarto, deitando-se.
Muitas idéias podem se fazer deste momento. Carne fraca, pecado. A elaboração tardia de um Édipo, ou até mesmo uma vingança à castração psicanalítica. Proveito próprio. Filantropia. Enfim, várias teses e antíteses que não chegariam a qualquer síntese. Vício da razão, essa nossa tara em explicar tudo cartesianamente.
Fizeram amor. Ou, para fazer jus à linguagem sacra, ele a possuiu.
Obs.: Inspirado numa história real.
Bruno Costa
terça-feira, 6 de julho de 2010
Os Sete Pecados Capitais: GULA
terça-feira, 22 de junho de 2010
Os Sete Pecados Capitais: PREGUIÇA
Joyce Abbade