terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os Sete Pecados Capitais: AVAREZA

Ela vivia há 20 anos naquela mesma rotina, não entendia o sorriso das outras pessoas que lá viviam. Cidade pacata... nada mudava pra ela. Maria, sua irmã, achava tudo uma graça, talvez porque tivesse apenas a metade de seus "longos" anos. Tatiana achava a cidade esquisita, achava as pessoas estranhas, pessoas que valorizavam o jardim da praça, a praça, as datas comemorativas e toda aquela festividade que as acompanhavam; porém... nada lhe confortava, nada afetava Tatiana. As crianças adoravam aquela farra, pois os faziam lembrar das histórias dos mais velhos, cada objeto, cada música, cada veste. Os idosos nem sequer viam o tempo passar, era uma alegria só! Preservar seus laços era tudo o que os faziam olhar para trás com sorriso estampado. Ah! Que beleza era a memória coletiva daquela cidade! Só Tatiana não a contemplava. A dinâmica acontecia: as senhoras eram responsáveis por algumas atividades, como por exemplo cuidar das comidas que encheriam a praça de sabor, os homens garantiam o andamento da cidade e com as crianaças por perto não tinha quem não fosse contagiado por aquela alegria. Era uma delícia cultivar aquela cultura, todo ano era aquela mesma euforia em setembro, mês da festa da cidade, e lá iam todos com seus objetos mais memoráveis para rua, exibi-los aos conterrâneos e aos turistas.
Todos eram bem-vindos! Lá na praça se ouvia de tudo um pouco, cada um falava de seu objeto como o mais bonito, o mais importante... cada qual com o seu fetiche. E dele viviam, pois eram as histórias e o significado simbólico daqueles objetos que valiam quase toda riqueza que mantinha a cidade. Os objetos eram demais desejados pelos que frequentavam a festa; pagava-se o preço que fosse para apenas ver os objetos; algumas raras vezes os vendiam. E assim os habitantes da cidade acumulavam.

Era uma bela rotina para todos, exceto para Tatiana que continuava não vendo graça em nada daquilo. Aquelas pessoas apegadas as suas histórias e objetos, só a faziam sentir-se mais distante daquele sentimento de apego. Cada objeto tinha seu valor e isso era o que mais importava para aqueles habitantes: valor afetivo, valor simbólico e até mesmo o próprio valor monetário. Lá era assim... todo setembro e as vezes até os outros meses do ano giravam em torno do apego ao significado daqueles valores.

Somente Tatiana achava o máximo a cidade vizinha, onde esse valor de guarda e acumulação de objetos não existia. Lá o lema eram as trocas constantes, as relações efusivas e passageiras; os objetos pessoais só significavam enquanto fossem o último modelo nas vitrines. Não existia nenhum penduricário para encenar nada. Tudo tornava-se lixo, após seu tempo restrito de uso... o descarte era o destino. Mas lá Tatiana sentia-se em casa. Dá sua cidade, só tinha olhos para toda aquela novidade da cidade ao lado, lá não se mantinha nada; com o descarte... a única coisa que se mantinham era o lixo... que se acumulava a cada instante.

Tatiana seguia assim... preferia não ver a beleza do "ar fresco" que respirava ao abrir sua janela. Só tinha olhos pro lixo, mesmo que indiretamente!


Joyce Abbade

28 comentários:

Tatiana disse...

Tatiana minha filha, é uma decisão dificil escolher: as crenças e valores x o descartável mundo. Dois extremos, nenhum meio termo que sirva para apaziguar os excessos. Se fosse do tipo capitalista faria de vc um exemplo de inovação e simbolo dos novos tempos, se fizesse o estilo tradicional tão igualmente a faria simbolo, mas agora de uma pessoa que não esquece suas raízes e não ignora seu passado e história. o texto se resume no acúmulo. De uns, o acúmulo de vaidades, verdades e ilusões. De outros o acúmulo do descartável e da sensação de não satisfação estendida por uma vida.

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http://coracaoonline.blogspot.com/

perplife disse...

É o que acontece quando não se abre mão do 'lixo', de coisas pequenas e insignificantes, para agarrar um valor maior do que tudo. Vivendo assim, os valores não fazem sentido, o que não faz sentido tem seu valor.

Letícia disse...

Eu nasci e cresci em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul e sempre admirei o caos urbano da capital. Já moro em Porto Alegre fazem três anos e o engraçado é que, ao contrário do que sempre me falaram, existem mais árvores e as pessoas são mais gentis do que na minha antiga cidade pequena. Claro que o índice de violência é muito maior e muitas coisas são superficiais e passageiras, mas eu percebo que aqui existe um sentimento de possibilidade, como se todos fossem capazes de escolher o rumo de suas vidas, como se houvesse espaço para todos - por mais peculiar que sejam seus gostos, estilo ou pensamentos - e as pessoas não precisem se adaptar e se moldar ao "padrão único" e restrito da cidade. Na minha cidade, as pessoas se tornavam infelizes apenas para que todos acreditassem que eram felizes e que possuiam uma vida perfeita. Apenas pelas aparências, apenas pelo medo de mostrar como realmente eram. E eu sinceramente prefiro um lugar onde as pessoas tenham as informações para tomarem suas atitudes com consciência. Deixe a menina do texto ser feliz no lugar que ela sente que ela pertence. Respeito muito as fraquezas humanas. (:

Bruno Costa disse...

Avareza, apego sórdido as riquezas. Alguns, juntam por juntar, outros nem sequer juntam algo. Uns preferem a riqueza da materialidade; outros a materialidade da riqueza? Quem pecou? Obter bens pode conter muitos sentidos. Com certeza jogar fora é a tônica de hoje. O acúmulo de lixo só não é problema para quem vive em lugares abastados, ou na Inglaterra, e pode jogar o luxo nos Brasis da vida. Quem diria? Quem diria que um dia um pecado poderia ser a salvação da Terra? Avareza, sovenice. Que fiquem os objetos...
Não acho que alguém deseje o lixo, o desejo é de não querer vê-lo, pelo menos aonde e quanndo se pode.
Bj

Kell Alves disse...

Moro numa cidade pequena como a q tu descreveu mas, eu a trocaria pela capital fácil, fácil. Gosto de barulho, agito, vida..
Ótimo texto.

Victor Von Serran disse...

so me ligo ao significante...

espero sua visita
seguindo tambem
http://universovonserran.blogspot.com/

Marcus Alencar disse...

Achei bem interessante a forma como você retrata os pecados capitais com essas histórias. É incrível como muitos desses estão cada vez mais vivos na sociedade em que a gente vive, não é mesmo?

Victor Von Serran disse...

adorei tudo sobre a tatiana

seguindo


http;//universovonserran.blogspot.com

Leonardo Tadashi Nakasone de Paula disse...

Parabens, voce escreve muito bem!!! Adorei a forma como retrata os pecados, de uma forma popular e de certa forma cotidiana!!

Nao só Tatiana, mas tambem Dona Amelia!! Amei!!

http://ensaioseteoriasasavessas.blogspot.com

Yullia Marizia disse...

Que massa.
às vezes me sinto meio Tatiana, mas na maioria das vezes fico abafada que nem todos os outros moradores da cidade dela.
Parabéns pelo blog. To seguindo.
Beijão

Gabriel Pozzi disse...

putz, perdi meu comentário... vou refazer ¬¬

Enfim, o último "pecado", acho que li todos, e tal como os outros, um texto em altíssimo nível! parabéns!
A questão mesmo é saber onde encontrar a "cidade vizinha" onde não exista avareza... acho que isso é impossível de encontrar em um planeta como a Terra.. :(

Mas quem sabe um dia... um dia...

http://songsweetsong.blogspot.com/

kakashi disse...

Parabens pelos textos, um assunto que não sai da "moda" nunca. Voce escreve muito bem.

Guilherme disse...

legalssss

Leo Lago disse...

Primeiro meus parabens pelo belo blog... o layout é muito bonito
e os textos sobre os pecados capitais são bem interessantes... gostei de todos eles

abs
Leo Lago
http://www.poeta-bastardo.blogspot.com/

Victor Pagani disse...

Muito bom os posts sobre os Sete Pecados Capitais...

[]'s

Sandro Batista disse...

Essa série sobre os pecados capitais é sensacional... Isso tem que chegar a mais pessoas...

Meus Deus... Que maravilha de texto esse que fala da avareza, e expõe os valores que nós não temos mais...O pecado aqui vira virtude...Como nos demais posts dessa série!


ESPETACULAR!!!!!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

MESTRE DOS MAGOS disse...

Passei só para deixar um " OI "..rs ... fique com Deus e tenha um ótimo final de semana.

Sanderson Aron disse...

Ótimo texto.
É triste pensar que existem pessoas como Tatiana, que não veem beleza nas coisas mais simples da vida.

Seyal Layes disse...

As coisas que merecem maior valor muitas vezes não damos, os sentimentos!
muito bom o blog
retribua a visita
http://paginazabertas.blogspot.com/
abraços, fique com Deus e que o Senhor JEsus Cristo te abençoe

Juliana Amado disse...

AMEI!!! Muito boa maneira de falar sobre a avareza. Um excelente conto. AMEI!

AllanDavid disse...

Parabéns você escreve muito bem!
Adorei o blog... Vou seguir!

Lucas disse...

É Tatiana...é realmente difícil ficar sozinho entre um monte de gente que é simplesmente incapaz de compartilhar um único ponto de vista contigo, ainda mais quando as duas opções conhecidas são meio radicais, ou pelo menos entendi assim.
Não sei qual seria minha escolha, uma vez que pelo menos nesse temática do texto, sempre vivi numa cidade grande e as opções são bem variadas, ainda que nenhuma seja perfeita...

Digho disse...

Primeiramente gostaria de parabenizá-lo pela série de posts sobre os 7 pecados capitais.Sem duvidas a Avareza é um dos mais marcantes no mundo moderno.Quanto mais os homens tem, mais querem ter( dinheiro, dinheiro e dinheiro). Sucesso

Kadu disse...

parabens pelos posts sobre os 7 pecados capital, muito bom, principalmente pela forma que voce escreve...sucesso!

www.espiritoemverdade.blogspot.com

Guilherme Lombardi disse...

Os posts sobre os pecados capitais ficaram incriveis!

Desoriental disse...

Eu realmente gostei desse seu post,vou ler todos. :)

Horácio Leal ° disse...

CARA, DOU O MAIOR VALOR PARA OS BLOG´S QUE TEM VIDA PRÓPRIA, SEU BLOG É ASSIM, ELE TEM UMA IDENTIDADE E NÃO PRECISA DE RÓTULOS.

PARABÉNS PELAS SUAS PALAVRAS HISTÓRIAS BEM ELABORADAS, EU TB COMECEI ESCREVER ALGUMAS COISAS, PAREI, MAS VOU VOLTAR, NO MUNDO VIRTUAL É TUDO MUITO PARECIDO E EU ESTOU CORRENDO DISSO.

QUER AJUDAR A DIVULGAR MEU BLOG?

ABRAÇO!!!

Barbara Nonato disse...

Fugir da avareza... Um local onde ela não exista? Não sei se há. cada um carrega uma cota, uns mais outros menos; mas todos tem...
O conto é de certa forma pesado, mas gostei! Gosto de tua forma de escrita detalhada.