sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O diário sem memória

Do lado de fora da casa é possível ouvir os gritos abafados e, talvez para os mais sensíveis, os quais porventura passeiam pela calçada numa caminhada de fim de tarde ou ocupando o lugar de simples transeuntes, seja possível até mesmo sentir a tensão que visita o casal. Do lado de dentro o que se vê parece o fim; um casamento tateando sua bancarrota. Certamente nada de novo, como alguns bem poderiam observar. Sim, devo concordar. Mas não nos apressemos porque a história não termina aqui e precisamos prosseguir. Letícia envolveu-se com outra pessoa, um rapaz mais jovem que seu marido, embora não nos convenham mais detalhes e, por não ter o consentimento do marido, como é o costume já há muito tempo no mundo, teme acabar sem ele. Algumas feministas poderiam dizer que também isso seria comum e nada problemático, mas não iremos, insisto, nos apressar nos julgamentos.

Rubens não flutua como seria necessário em casos como este, quando uma pessoa fica "sem chão" como popularmente dizemos. O chão é o lugar onde sabemos pisar. Porém, Rubens se encontra de pé, embora as pernas lhe tremam e não façam valer qualquer firmeza, o próximo passo talvez esteja mais para uma queda livre, se é que algo pode ser merecidamente chamado livre, quem sabe unicamente isso, uma queda, mereça esse complemento. Para onde poderia ir agora sem sua mulher de longas aventuras? Precipitam-se os que pensam que o desejo se dê pela falta. Não é por descaso ou mesmo talento atrofiado para as necessidades do casamento de Rubens que a levou ao lugar que ainda pouco foi. O acaso que nos ronda desconhece as normas morais e as quantidades socialmente autorizadas, se bem me entendem. Caso contrário, que fique claro, ainda que nos demoremos mais no assunto, que Letícia não buscou no outro jovem suprir suas carências afetivo-matrimoniais, tanto não foi que ainda está com o marido e sem planos de deixá-lo. O desejo que a tomou de assalto não lhe descreveu o adultério, nem tampouco lhe disse que apenas um homem lhe bastaria e que então voltasse ao seu marido já que muitos não encontram com quem se deitar, sendo que ela já o tem. Tivera? Não sabemos onde os desencontros irão levar o ilustre casal. Por vezes o desejo vem como uma catástrofe natural, que independentemente dos esforços contrários acontecem, embora os homens façam o favor de os precipitarem.

Vejamos o lado da suposta vítima. Embora o medo parecesse seu único sustento neste instante, já sabia como tudo incrivelmente acabaria. Assim, num misto de alívio e melancolia, como um só sentimento, um só afeto, mas por carecer de inventar palavras não se pode sentenciar mais adequadamente, ainda bem, pois seria demasiado desagradável se soubéssemos falar tudo, dar nome a tudo, sendo que tudo nunca será, pois o mais ainda está por existir, ficamos por ora com as duas palavras aparentemente avessas, numa só dose para dizer que o homem decidiu sair. Ficaria longe uma semana para que não ruísse seu plano, este que, acalentemo-nos, ainda não nos foi revelado, não criemos mais preocupações, já nos basta um casal perdido em toda essa situação. Antes de fechar a porta disse Rubens que voltaria a abri-la, mas apenas talvez, com tom de “quem sabe?”, apenas se lhe perdoasse a traição, foi assim que disse pois assim julgou, para recomeçarem do zero, como se isso lhes fosse possível. Muitas vezes se começa do 1, do 3 ou até do -1, ou mesmo do -0,5 por encarecimentos de detalhes, porém jamais se começa do zero, que é um estado que não nos compete saber. Em meio a tudo, Rubens nem mesmo lembrara que já não seria a primeira vez.

Continua...
 
Bruno Costa

31 comentários:

Tati disse...

Parabéns pelo texto bem escrito, estória bem contada e sentimentos bem postos.

V¡ии¡¢¡µs ツ disse...

parabens pelos textos! continue a postar! acesse

Site da NET | Portal de Novidades

Nathacha disse...

Interessante a forma que escreve ! faz com que o leitor se identifique com a situação e o põe em reflexão pelo tema abordado!
http://medicinepractises.blogspot.com/

Glal disse...

Muito bom o seu blog!visite o meu!
http://juventudeinformada.blogspot.com/

Anônimo disse...

Muito bom os textos..
Legal de mais..
Curto muito esse tipo de trabalho..

Alex Azevedo Dias disse...

O que é livre? A queda é livre, a associação é livre?Até a palavra "livro", oriunda da palavra "livre", nem livre é mais.

Alex Azevedo Dias disse...

"Precipitam-se os que pensam que o desejo se dê pela falta." "Por vezes o desejo vem como uma catástrofe natural, que independentemente dos esforços contrários acontecem, embora os homens façam o favor de os precipitarem." O desejo não se dá na falta, pois a própria falta que é o desejo. "mbora o medo parecesse seu único sustento neste instante, já sabia como tudo incrivelmente acabaria." "(...)seria demasiado desagradável se soubéssemos falar tudo, dar nome a tudo, sendo que tudo nunca será, pois o mais ainda está por existir, ficamos por ora com as duas palavras aparentemente avessas, numa só dose para dizer que o homem decidiu sair." Com essas citações, está para mim bem claro que o autor aprecia a teoria psicanalítica. Um grande abraço.

Glal disse...

Muito bom o seu blog cara!Visite o meu!

http://juventudeinformada.blogspot.com/
http://juventudeinformada.blogspot.com/

Barbara Nonato disse...

Narrativa contundente e história interessante. Parece que viajei com Rubens em meio a esse turbilhão de emoções que parecem corroê-lo um pouco.
Esperando a continuação!

Lívia disse...

Parabéns! sabes usar muito bem as palavras :)

Gabriel Myslinsky disse...

Existe uma graduação de inteligência entre o leitor e o escritor...
Alguns assuntos, ainda mais pêgos de surpresa, as vezes nos deixam sem saber o que dizer...
Em relação a mim, senti coerência entre as palavras, mas não entendi o sentido de todo este texto...
Mas há os que entendem, eu apenas vivo algo diferente e talvez não pude me familiarizar com esta postagem...
só isso...

Débora disse...

Letícia parece uma mulher forte e Rubens um pouco mais vulnerável, talvez ela busque sim alguma falta em outrou alguém...(minha interpretação)...vamos ver a continuação!
Um abraço e pssando para retribuir a visita!

http://avessocotidiano.blogspot.com/

Nathacha disse...

Voltando somente para reforçar o elogio dado ao texto!
http://www.medicinepractises.blogspot.com/

Kiko Lemos disse...

Texto sagaz e reflexivo, precisei dar duas leituras para compreener, e confesso que ainda fiquei com dúvidas em algumas partes, mas entendi alguns posicionamentos levantados.

MayanaPin disse...

nossa. otimo texto.
vc escreve mt bem ^^

www.mayanapin.blogpot.com

divulgandoblog disse...

Gostei do conteúdo do seu blog, se quizer, siga o meu

http://somosdevassas.blogspot.com/

Luci disse...

nossa, estou adorando seu blog
adoro ler coisas assim
parabéns pelo seu blog
http://vivaiona.blogspot.com/

DE TUDO UM POUCO, MINHA OPINIÃO disse...

Eu custumo dizer sempre, que escrever é facíl. Dificíl é ter oque escrver, ou seja, ter oque dizer. Você tem oque escrever e tem oque dizer. Parabens de verdade!

Alessandra Santos disse...

Salve, Bruno!

Gostei do conto. Mostram personagens tão perfeitamente verossímeis. Poderia ser qualquer um de nós, eles tem sentimentos completamente humanos. Todos estamos sujeitos a situações como essa contada. Quantas vezes fomos covardes, fracos... Quantas vezes erramos, não é mesmo?

Gosto muito desse caráter da dúvida presente no seu texto. Ficam o dito e o não-dito formando um hiato constituído da nossa própria imaginação. Com isso, você deixa lacunas para que nós, leitores, as preenchamos com nossas próprias ideias, dúvidas, possibilidades.

Ótimo texto. Espero a continuação.

Paulo Muzio disse...

Nossa... quantos comentários, hein? he he

V¡ии¡¢¡µs ツ disse...

expos seus sentimentos! parabeens! continue assim! acesse


Site da NET | Portal de Novidades

Alex Azevedo Dias disse...

Você tem um estilo machadiano, alongando-se ao dialogar com o leitor.

DE TUDO UM POUCO, MINHA OPINIÃO disse...

Olá, é com grande satisfação, que estou lhe passando como premio a o seu blog, dois selos. Eles estão lá no nosso blog. Um super abraço.

Nathacha disse...

Olá! No momento estou apenas te seguindo, mas prometo voltar e comentar em breve suas postagens!Agradeceria se seguisse o meu blog, assim criamos um vínculo que facilite a divulgação de ambos os blogs! passa lá?
http://medicinepractises.blogspot.com/

Confissões disse...

Nossa vc escreve muiito bem, meus
parabens e ja esta sendo seguido

http://desabafodeumalunatica.blogspot.com/

Luci disse...

Adorei, instigante seu texto.
Aguardo a continuação.

http://vivaiona.blogspot.com/

Carla disse...

Também gostei muito, histórias de relacionamento bem contadas nos dão gosto de ler.

ϟ Juℓy ® disse...

Se isso for coisa inventada, você tem muita criatividade!! Parabéns!!

Beijos

Harah Nahuz disse...

Você captou as coisas de uma forma tão real,tão vivída...E o ângulo que observa e narra,prende mesmo do começo ao fim.É um clichê,o enredo em si,mas a forma com que narra,faz com que pareça uma trama elaborada,e na verdade é...A trama dos conflitos internos!
Adorei :)

Kelly Christi disse...

Acho que ja visitei o seu blog. Gostei do seu psot, que fala sobre crises em relacionamento por mais banais ou complicadas que possamos ter e de uma forma bacana, mas particularmente dei uma vasculhada por aqui e gostei mais de outros.

tbm gosto mto de contos e
cronicas, se quiser visite


http://pequenosdeleites.blogspot.com/

Virgilio Kruschewsky disse...

Crônica da vida real. Muito comum par muitos casais.